“Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.

Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!”

(Efésios 3:14-21)

O apóstolo Paulo, depois de passar três anos na cidade de Éfeso, agora sai de Éfeso para Jerusalém, levando uma oferta para os pobres da Judeia. Ali ele é preso, é transferido paraa Cesareia Marítima, onde fica dois anos sendo acusado pelos judeus e opta por ser julgado em Roma. Ele está em Roma, preso e algemado. Não pode viajar, mas pode orar. Os homens podem limitar seus movimentos de viagens e pregações, mas os homens não podem impedir que ele ore.

E ele diz: “Por esta causa eu me ponho de joelhos diante do Pai.” Que causa é esta? Ele escreve no capítulo 3, verso 6, que a causa é que, o grande mistério, agora revelado, é que Deus só tem uma igreja, um povo, um rebanho, uma família. E este rebanho, este povo, esta família e esta igreja é composta de judeus e de gentios.

E isso é tão extraordinário, porque este era o projeto de Deus desde o começo com Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). E nós fazemos parte desta grande e maravilhosa Igreja do Deus Vivo, coluna e baluarte da verdade.

Paulo diz que esta igreja toma o nome de Deus, tanto no céu, como sobre a terra. Existe uma só igreja, mas ela tem duas características: ela é a Igreja Triunfante que está no céu, e é a Igreja Militante que continua na terra. É a mesma igreja. Aqueles que já foram, aqueles que ainda aqui permanecem, mas um só povo, um só rebanho, um só corpo, uma só igreja.

O que Paulo vai pedir é a capacitação de poder para esta igreja, quando ele vai escrever o seguinte: “Para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder.” O que Paulo está pedindo é que Deus use todos os seus atributos — porque glória é a manifestação plena de todos os atributos de Deus —, que Deus empregue tudo quanto tem, tudo quanto é para responder à sua petição, qual seja, para que sejamos revestidos de poder.

Não há cristianismo sem poder. O reino de Deus não constitui de palavras, mas de poder. O evangelho é o poder de Deus. O Espírito Santo vem capacitar a igreja com este poder. Não podemos viver uma vida frágil, fraca, medíocre, quando a suprema grandeza do poder de Deus, que ressuscitou a Jesus de entre os mortos, está à nossa disposição.

E Paulo prossegue, e vai dizer o seguinte: “que sejais revestidos de poder, mediante o seu Espírito no homem interior”. Não é uma espiritualidade cênica, espetaculosa, teatral. Não. É no homem interior que este poder do Espírito Santo age; esta capacitação sobrenatural.

E ele vai mostrar uma coisa importante: como é que você pode saber que você está revestido com esse poder? Quais são as evidências? Que sinais você apresenta? E Paulo responde: “E, assim, habite Cristo no vosso coração pela fé”. Eu chamo a sua atenção para esse verbo “habitar”. Há duas palavras no grego para “habitar”.

A palavra παροικέω (paroikeo) e a palavra κατοικέω (katoikeo).

Paroikeo é a habitação temporária, como a do turista que chegou num quarto de hotel, pagou a sua diária e ali ficou durante um dia, uma noite ou, quem sabe, alguns dias. Mas esse turista, esse hóspede, não é o dono daquele quarto. Ele não pode fazer reformas naquele quarto. Ele não pode trocar os móveis daquele quarto. Ele está ali, mas ele não mora ali permanentemente, ele vai embora.

Só que a palavra que o apóstolo Paulo usou aqui para “habitar” não é paroikeo, é katoikeo. E a palavra katoikeo é o habitar do dono da casa, do residente permanente que comprou a casa, que tem direitos sobre ela, que pode fazer reformas nesta casa, que pode trocar os móveis da casa, que pode fazer mudanças na casa e que tem todas as chaves.

Em outras palavras, você é uma pessoa cheia do Espírito Santo, se Jesus, que habita no seu coração, tem todas as chaves do seu coração. Você não busca administrar uma determinada área da sua vida, não cedendo a Jesus as chaves. Ele manda. Ele é o Senhor. Ele é o dono. Ele é o administrador. Ele tem o controle total desta casa. Ele tem todas as chaves. É assim que Cristo deve habitar no nosso coração pela fé.

Mas ainda você pode perguntar: “Mas isso é subjetivo; como é que eu posso saber que Jesus tem todas as chaves da minha vida? Como é que eu posso saber que ele habita em mim (katoikeo e não paroikeo)?” E a resposta prossegue: “Estando vós arraigados e alicerçados em amor”. Paulo lança mão de duas metáforas, uma do mundo botânico, outra da engenharia civil. Ele usa a palavra “enraizado” (arraigado), e a a expressão “alicerçado”.

Quando você vê uma árvore frondosa empinada aos céus, ela só está de pé porque tem raízes profundas. Quando você anda por uma cidade cosmopolita e vê um prédio de 20, 30, 40, 50 andares, ele está de pé porque o engenheiro não errou no cálculo do fundamento. Ou seja: se você está revestido com poder, se Jesus habita em seu coração, a evidência disso é que você vai amar de maneira profunda, estável e sólida.

O amor é o sinal da maturidade cristã. O amor é o cumprimento da Lei. O amor é a prova dos nove para revelar que somos verdadeiros discípulos de Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13.35). Quem não ama, não conhece a Deus. Quem não ama, não pode ter Cristo habitando (katoikeo) em seu coração. A prova, a evidência de que você é verdadeiramente um discípulo de Jesus e que Jesus habita em você, é que você ama como ele amou você.

Mas Paulo prossegue e diz assim: “a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” (vs. 18-19). E eu chamo a sua atenção para dois verbos aqui: o verbo “compreender” no verso 18 e o verbo “conhecer” no verso 19. Compreender tem a ver com intelecto, com cognição, com entendimento. Conhecer tem a ver com experiência, com relacionamento.

O cristianismo não aposenta a sua inteligência, a sua razão. Por isso, o Dr. John Stott diz que “crer é também pensar”. A mensagem do evangelho é dirigida à sua mente, ao seu intelecto, ao seu entendimento, à sua compreensão. Mas, não basta apenas ser um teórico. É preciso conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento, na prática, na experiência. Esse amor que palavras não definem — como dizia o poeta: “Ainda que todos os mares fossem tinta, ainda que todas as nuvens fossem papel, ainda que todas as árvores fossem pena, ainda que todos os homens fossem escrivães, nem mesmo assim poderia se descrever o amor de Deus em Cristo Jesus”. O amor de Cristo nos constrange.

E Paulo conclui esta oração dizendo: “Para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus”. Isto é algo para além da nossa compreensão. Este Deus que, nem os céus dos céus podem contê-lo, agora habita plenamente em nossa vida. Estamos saturados com a presença de Deus, repletos da presença de Deus. Aliás, Efésios fala que você é habitado plenamente pelo Deus Filho, pelo Deus Pai, pelo Deus Espírito Santo.

Talvez você argumente: “Bom, esse pedido é ousado demais. Quem sabe, Paulo estivesse delirando numa prisão ao fazer essa oração”. Mas ele responde no versículo 20 assim: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre”. Em outras palavras, nunca haverá limitação em Deus. Ele sempre tem mais para nós. Numa linguagem bíblica, enquanto tiver vasilhas vazias, o azeite de Deus vai continuar jorrando sobre a nossa vida.

Como é que Paulo termina essa oração? Com doxologia: a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, não apenas no passado, mas agora e para sempre”. Este é o Deus que tem mais para nós. E, por esta razão, Paulo disse: “Por esta causa, eu me ponho de joelhos diante do Pai”.

Rev. Hernandes Dias Lopes

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